terça-feira, 31 de março de 2015

Porque Ela Voltou Diferente...

Quando eu era criança sempre ouvia pessoas falando: "fulano foi fazer intercâmbio no Canadá, cicrano foi pros E.U.A...nossa, ele voltou tão diferente"... e no fundo sentia uma pontinha de inveja: quando seria a minha vez? queria voltar diferente.
O meu intercâmbio demorou, demorou mais do que eu conseguia aguentar, mas chegou e não poderia ter sido em hora melhor.
Sendo mais velha, já com algum grau de sabedoria sobre os meus próprios valores, vontades, sonhos e objetivos, acredito ter tido um aproveitamento muito maior do que o que eu teria tido se tivesse 15 anos, como a maioria das pessoas.
Meu intercâmbio não foi nos E.U.A, não foi também no Canadá...foi num lugar muito, mas muito melhor do que jamais poderia ter sonhado: AUSTRALIA. O país mais exótico do mundo deveria ter tantas outras denominações quanto se tem qualidades (isso é assunto para um próximo post), me mostrou e mudou minha vida em tantas formas que as vezes me sinto uma pessoa completamente diferente de quem eu era antes de viver essa experiência. Voltei diferente, ainda bem, porque convenhamos, viver em outro país, outra cultura, numa situação totalmente desconhecida e voltar sendo exatamente quem se era, é o maior desperdício de tempo, dinheiro e de vida!
Tive a oportunidade de conhecer pessoas do mundo inteiro, todas as culturas inimagináveis, todos os sotaques, todas as culinárias e o que eu ganhei com isso?
Além de ganhar conhecimento em si, o fato de experimentar coisas novas, me fez ser muito mais aberta ao novo do que eu era. Porque apesar de sempre ter me visto como uma pessoa "corajosa", eu jamais me arriscaria numa comida indiana, por exemplo, "muito condimentos, temperos, e coisas estranhas misturadas", quem diria que um dia se tornaria uma das minhas culinárias favoritas!?
Independência, não só pelo fato de estar sozinha e poder fazer tudo o que eu quisesse sem dar satisfação para ninguém, claro, que isso foi um fator muito importante, mas, aprender a lidar com responsabilidades e obrigações, foi muito mais enriquecedor e estressante também, mas extremamente necessário. Decidir por minha própria conta qualquer coisa, foram momentos muito desafiadores, em certas circunstâncias me fizeram duvidar da minha capacidade de discernimento, mas era aquela coisa: ou vai ou vai, não tem pra quem correr, ninguém vai fazer por mim.
Disposição, outro ponto em que mudei demais, não só o fato de que aprendi a falar sim pra muita coisa, que no caso seria me permitir, apenas IR; mas me dispor a iniciar uma conversa mesmo com medo de não saber falar direito, mesmo sem nunca ter visto a pessoa; disposição para não ficar trancada no quarto, a ver, andar, fazer coisas que você sempre disse que jamais faria porque eram idiotas demais, brega demais, estúpido demais. Com certeza, são dessas situações que minhas melhores memórias vieram.
Respeitar. Entendi que o respeito que se tem para com o próximo no seu país de origem está muito longe do respeito que se tem em um outro país; tudo é tão diferente, que as vezes você chega a pensar que devem estar pregando uma peça em você. Acho que as diferenças culturais foram as mais difíceis de aceitar e respeitar...e agora tudo é tão natural, nada mais te assusta, nada mais te choca e mesmo que você não goste de determinada cultura, no mínimo você a entende, porque viu de perto alguns por quês; o que é maravilhoso, imagina viver num mundo onde ninguém se incomoda com a sua cultura?
E religião, tive a oportunidade de conviver com pessoas de religiões bem diferentes da minha e por incrível que pareça, me apaixonei por algumas delas, a ponto de me fazer pesquisar e ler sobre. 
Eu que nunca me considerei uma pessoa preconceituosa, estando lá, vivendo lá, sofri algumas vezes preconceitos sim, houveram situações chatas, mas, entendi que preconceito é tão pequeno diante à riqueza das pessoas.
Eu que nunca fui muito fã de pessoas no geral, me apaixonei por uma diferente todos os dias. Me apaixonei pelas mesmas todos os dias.
Viver em um país diferente é se descobrir todos os dias, é descobrir o mundo um pouquinho todos os dias.
Viver em outro país te torna mais maleável, ou deveria pelo menos, porque é você fora da casinha! É você fora da sua zona de conforto e descobri que as coisas só começam a acontecer, quando você se dispõe a ficar desconfortável, quando você se abre para o inesperado.
Viver em um país diferente, te faz diferente e ainda bem! Hoje me considero uma pessoa muito melhor do que quem eu era antes de sair daqui, consigo reconhecer com uma facilidade muito maior, meus erros, meus pontos fracos e tenho mais certeza ainda de quem eu sou e de quem quero ser, tenho mais convicção dos meus sonhos, do que preciso fazer para alcançá-los e olha só, eles chegam! Sempre chegam, se não desistir deles.
Um intercâmbio te dá a chance de você ser quem quiser, de se reinventar, de se expressar exatamente como quer.
Um intercâmbio te faz voltar pra casa com vontade de sair de novo, de voltar ou de procurar um outro lugar. É aquela faísquinha que muitas vezes faltava.
 
(Academic English Course: China, Vietnam, Paquistão, Brasil, Nepal, Líbano, Butão, África do Sul).

domingo, 8 de março de 2015

Porque Todo Mundo Precisa Ser "Livre" Uma Vez Na Vida.

Calhando que hoje é o Dia Internacional das Mulheres, decidi falar sobre "Livre" (Wild), livro/filme de Cheryl Strayed.
A autobiografia retrata uma jovem mulher volúvel, que se vê completamente perdida em sua própria vida após a perda da mãe; afundada em depressão encontra amparo na Heroína e começa a viver uma vida adúltera a partir daí, dando fim ao seu casamento também. Após se ver completamente sem nada, decide se recompor e encontrar um rumo para sua vida e então, parte em uma jornada solitária em busca de auto conhecimento e revelações no percurso da Pacific Crest Trail, uma trilha de mais de 4.000 km que atravessa os Estados Unidos da fronteira California/México até Washington/Canadá; sem preparo físico, sem conhecimento do percurso e sem equipamentos adequados. Cada trecho conquistado, cada situação adversa vencida e pessoas conhecidas pela estrada, vão revelando um pouco da mulher que estava soterrada em meio à decadência pessoal. Resumindo, a moça conclui o percurso, encontra seu eu interior e forças para mudar de vida, para ser alguém melhor.
Minha pretensão aqui é mostrar que por mais que as vezes nos escondemos embaixo de uma casca de superficialidade ou que usamos outros artifícios, talvez até maléficos à própria saúde, para nos esconder de nós mesmas e dos outros, podemos nos surpreender com as descobertas que teríamos se prestassemos atenção aos sinais que a vida nos dá, podemos nos surpreender com quem somos e na verdade, descobrir quem somos de verdade.
As vezes uma conversa com alguém diferente ou uma pessoa mais sábia; um filme que te prenda tanto a atenção e mexa com seu emocional ou mesmo uma mochila nas costas e um pouco de coragem; orgulho enfiado no meio da bagagem e determinação podem mudar uma vida inteira. É aquela velha história que todo mundo acha que é a maior bobagem; se dar uma segunda chance.
No final, a epífane da vida está em entender que as coisas ruins que aconteceram no passado foram necessárias para que te trouxessem até este momento; em que está buscando algo novo e melhor; os problemas, os dramas, as decisões erradas na verdade não foram ruins, foram a gota d'água que fizeram transbordar teu copo e te fez procurar um copo maior.
Então esse post vai à todas as mulheres que enfrentam o cotidiano com a melhor maquiagem possível ou que preferem não se esforçar pra ser nada além da média; que todas nós tenhamos o respeito merecido em todos os dias do ano, todos os anos da vida; que todas nós tenhamos a chance de um dia nos reinventar, com mais ou menos maquiagem, mais ou menos cobertura, mas que seja sempre pra melhor.

Monólogo de Cheryl no filme Livre: 
"E se eu me perdoei? Eu pensei. E se eu me perdoei mesmo tendo feito coisas que eu não deveria? E se eu era mentirosa e traia e não tinha desculpa para o que eu fiz além de que era o que eu queria e precisava fazer? E se eu senti muito, mas se eu pudesse voltar no tempo eu não teria feito nada diferente do que eu já fiz? E se eu realmente quis dormir com todos aqueles caras? E se a heroína me ensinou alguma coisa? E se sim fosse a resposta certa ao invés de não? E se o que me fez fazer todas aquelas coisas que todos pensavam que eu não deveria ter feito também foi o que me trouxe até aqui? E se eu nunca for perdoada? E se eu já tivesse sido? "- Cheryl Strayed.