quinta-feira, 14 de maio de 2015

Se Não Fossem as Memórias, Eu não Seria Eu.

Para ler ouvindo CLARICE FALCÃO- CAPITÃO GANCHO.

Descobri que quando você realiza um sonho, a sensação que fica depois é quase de dormência.
Descobri que quando se vive algo muito bom, muito além do esperado, a sensação que fica quando acaba é devastadora.
Descobri que a memória é a forma viva da pior das torturas.
E descobri também que o passado lateja, como quando se prende o dedinho numa porta...por tempos.
Mas o que seria de mim sem meu passado, sem minhas memórias, sem a dormência no final de um ciclo?
Quem seria eu, hoje, se não tivesse vivenciado, experienciado tudo o que me foi posto no caminho?
A constante mudança que sofremos dia após dia para enfrentarmos o cotidiano, de nada seria importante se não pudéssemos olhar para o passado, porque é lá, que vemos o montante, é a longo prazo que há diferença.
Hoje percebi, que a melhor parte da minha vida se parece mais com um sonho, daqueles que quando a gente acorda não tem certeza se estava dormindo ou realmente aconteceu...é o tal, estado dormência.
Percebi, que aquilo parece pra mim como um bloco, um fato isolado, que não faz parte da vida real, essa, que não é la grande coisa.
Não é grande coisa porque agora é tudo mais ou menos, nada tem tanta graça, nada te excita, nada te deixa realmente feliz... e o fato de que não consigo sentir nada tem me intrigado demais, até cheguei a pensar que pudesse estar com depressão pós-intercâmbio, o que me explicaria muitas coisas...
mas não é!
É a dormência.
É aquela fase em que você tem que enfrentar o fato de que a realidade mudou, que o sonho tinha hora pra começar e acabar, e acabou.
É aquela fase em que você percebe o quão sortuda foi, mas que ao mesmo tempo agora é azarada o suficiente pra viver buscando o que o passado levou, porque não volta...não vai voltar, nada daquilo, nunca.
Pode ser que outro sonho venha, seja realizado, e vai ser...mas vai acabar, e vai ir outra fase de dormência. Nessas horas, a hibernação deveria ser um bom mecanismo de defesa, pelo menos tenho tentado.
Descobri que troco as horas acordadas pelas horas dormindo, pra não ver o tempo passar, na esperança de um dia acordar e poder lembrar daquilo tudo como uma memória boa, e não como fuga da realidade em que vivo agora.
Chega a ser triste, eu sei. Não é fácil estampar um sorriso e dizer que tá tudo bem, porque não tá, e as minhas expressões faciais infelizmente também nem isso me permitem.
Mas dizem que tudo é questão de tempo, então logo, reza a lenda que a dormência passa e você começa a sentir de novo coisas além da dor física de não poder estar onde se gostaria.
Mas também, depois de pensar e repensar inúmeras vezes diariamente, descobri também que o fato de lugar, não é apenas físico...percebi no meu caso, que o lugar que tanto quero voltar é o lugar onde eu estava emocional e psicologicamente, era onde minha alma estava em paz.
Descobri também, que eventualmente se você não se desprender do passado por bem, ele te deixa por mal.
Descobri, com muita relutância, que se permitir ter memórias é virar a página do teu livro favorito e saber que vai ter outro capitulo ali, novinho para ser lido...ou nesse caso, escrito.
E convenhamos, que dádiva é essa que podemos ter as páginas escritas em tinta permanente e ter imaginação livre pra fazer um capítulo completamente novo, porque o editor é você.
Descobri que por onde você passa você deixa uma parte de você e volta com umas mil de outras pessoas que conheceu pelo caminho.
Descobri, hoje, que sou feliz por tê-las.
Descobri que se não fosse a dormência eu não teria tempo de me fazer eu.



"Se não fossem as minhas malas cheias de memórias
Ou aquela história que faz mais de um ano
Não fossem os danos
Não seria eu.
Se não fossem as minhas tias com todos os mimos
Ou se eu menino fosse mais amado
Se não desse errado
Não seria eu.
Se o fato é que eu sou muito do seu desagrado
Não quero ser chato
Mas vou ser honesto
Eu não sei o que você tem contra mim.
Você pode tentar por horas me deixar culpado
Mas vai dar errado
Já que foi o resto da vida inteira que me fez assim
Se não fossem os ais
E não fosse a dor
E essa mania de lembrar de tudo feito um gravador.
Se não fosse Deus
Bancando o escritor
Se não fosse o mickey e as terças feiras e os ursos pandas
E o andar de cima da primeira casa em que eu morei
E dava pra chegar no morro só pela varanda se não fosse a fome
E essas crianças e esse cachorro e o Sancho Pança
Se não fosse o Koni e o Capitão Gancho
Não seria eu."