"NA NATUREZA SELVAGEM" como o livro e o filme são intitulados, é a história real de Christopher McCandless; que inspirou minha vida e fez explodir em mim o desejo de viajar, explorar, experimentar e conhecer...conhecer antes de tudo à mim mesma.
Ao final desse texto, não espero que ninguém concorde com meu pensar, mas que entendam o por quê e de onde veio esse impulso em mim.
Christopher McCandless foi um jovem de 22 anos, que apesar de ter tudo na vida (família com bom status social, diploma em mãos, família, amigos e tudo o mais que o dinheiro poderia comprar) se viu preso e sufocado nas redes de mentira da sociedade capitalista e pressionado a ser mais um robô fadado à uma vida pré-moldada e medíocre.
"Mais que amor, dinheiro e fama, dai-me a verdade. Sentei-me a uma mesa em que a comida era fina, os vinhos abundantes e o serviço impecável, mas faltavam sinceridade e verdade e fui-me embora do recinto inóspito, sentindo fome. A hospitalidade era fria como os sorvetes.”Abriu, então, mão de tudo o que tinha e partiu na maior e última aventura de sua abreviada vida. Seguiu sozinho rumo ao Alaska, sem dinheiro, sem identidade e sem família em busca da verdade sobre si mesmo, em busca do significado mais puro da palavra "humano", vivendo com muito pouco e principalmente em contato com a Natureza, selvagem e primitiva. Registrou momentos importantes de sua jornada com citações próprias e de autores que o inspiravam, como Tolstói, Thoreau, Twain e London; adotou também o pseudônimo Alexander Supertramp (super andarilho, em português), dando vida assim à quem ele sempre quis ser, enfim.
(THOREAU, em "Walden ou A vida nos bosques")
Uma citação importante que McCandless fez e que foi usada como abertura do filme retrata exatamente seus sentimentos perante à sociedade e mais ainda sua ansiedade relativa à jornada em questão:
" Há um tal prazer nos bosques inexplorados,
Há uma tal beleza na praia solitária,
Há uma sociedade que ninguém invade,
Perto do mar profundo e da música do seu bramir,
Não que ame menos o homem,
Mas amo mais a Natureza."
(Lord Byron)
McCandless passou 2 anos na estrada, cortou os E.U.A de sul a norte, conheceu inúmeras pessoas que marcaram sua vida e lhe ensinaram valiosas lições.
O título dessa obra traduz bem a filosofia da história: A natureza é selvagem e inóspita, mas esse não é o problema. O problema está no despreparo do ser humano que ao deixar de ser caça não conseguiu se desvincular do pensamento de caçador, esquecendo de que viver na natureza exige habilidades especiais como qualquer outro animal precisa. "O que nos difere dos animais não é exatamente o que nos separa deles".
A grande moral da história é sobre ser fiel às suas convicções e mesmo assim ter a humildade de ser um aprendiz na vida, buscando verdades simples; por que no fim, viver no conforto de nossas casinhas, tudo é controlado e vazio de conteúdo. Viver e morrer em busca daquilo que se acredita ser felicidade plena é uma dádiva e não má sorte; mesmo que alguns ideais sejam tão perigosos quanto a própria natureza.
O que mais me chama a atenção, é que McCandless idolatrava o elemento primordial da natureza, infinito e em constante transformação. Um ciclo eterno de onde tudo nasce e para onde tudo retorna. O fato de entender a simplicidade deste conceito e se recusar a viver obstante do único ciclo que toda a sociedade em que vivemos menospreza. E que ainda tão jovem como era foi capaz de entender que felicidade não está no existir e no ter; e sim, no viver e no ser.
Ao contrário do que muitos acreditam, essa não é a história de um moleque egoísta revoltado com seus pais, e vai muito além de erros cometidos por imaturidade e precipitação, apesar de ter sido sim, de certa maneira, egoísta, extremista e desafiador dos limites humanos, naturais e do bom senso. É a história de um jovem que sofreu por tanto tempo que a única maneira que encontrou de se livrar da angústia que o consumia foi se reinventar, conhecer a si próprio tão profundamente que só assim poderia voltar e viver em sociedade sem ser manipulado e corroído pela mesma. Alex, como gostava de ser chamado, teve a coragem de encontrar seu verdadeiro "eu interior" e de conviver com ele e apenas ele, por tempo demais. Alex é o grito entalado na garganta de todos nós, que alguma vez quisemos desesperadamente nos libertar daquilo que nos corrói de forma mais doída e atormentadora. Ele é o 1 segundo de coragem que a maioria de nós precisa para tomar uma atitude essencial. O mais incrível nisso tudo é que após sobreviver todas as adversidades e exorcizar seus demônios, alcançou seu próprio Nirvana e se viu preparado para refazer as pazes, voltar e recomeçar em sociedade.
McCandless não foi um herói ou um mártir, só era alguém que amava a Natureza, entendia seu papel no ciclo da vida como poucos o fizera; não queria luxo, nem rotina, ele queria viver dos seus instintos da forma mais primitiva, não apenas para o corpo mas principalmente para a alma.
Ao mesmo passo que sua ingenuidade e arrogância o mataram, porque acreditou que todo seu conhecimento e experiência de 3 meses eram suficientes para mantê-lo vivo em condições tão inóspitas e controladas unicamente pelas forças naturais quanto o Alaska. McCandless morreu sozinho no Magic Bus 142, Alaska; de inanição provocada por intoxicação grave devido à ingestão de plantas tóxicas confundidas com amoras silvestres. Em meio aos seus delírios finais, Christopher teve uma epífane que concluiu como ninguém toda a sua jornada e resultado de suas buscas: "A felicidade só é real quando compartilhada".
O que não significa que McCandless se arrependeu de tudo o que fez, muito pelo contrário, o único lamento que teve foi de não ter tido a chance de voltar a tempo de compartilhar a felicidade plena que ele encontrou depois de todas as provações passadas, sozinho.
"A alegria da vida vem em nossos encontros com novas experiências e,
portanto, não há alegria maior que ter um horizonte sempre cambiante,
cada dia um novo e diferente Sol.
[...]
Você está errado se acha que alegria emana somente ou principalmente das relações
humanas.
Deus a atribuiu em toda a nossa volta.
Está em tudo e qualquer coisa que possamos experimentar.
Só temos de ter a coragem de dar as costas para nosso estilo de vida habitual
e nos comprometer com um modo de viver não convencional".
(McCANDLESS, 1992 apud KRAKAUER, 2010, p.68)
Enfim, essa não é a única história que me inspirou, mas foi a primeira e por isso a mais importante.
PS: A capa de fundo deste blog é de Na Natureza Selvagem.
Aloha.
lindo.... poético.
ResponderExcluirÉ incrível como vou me encaixando em cada frase que escreve. Esse é um dos filmes mais fodas que assisti até hoje e com uma das mais lindas e inspiradoras mensagens. Talvez eu não tivesse me alertado para tantos detalhes da mensagem do filme, mas depois de ler seu texto começo a enxergá-los e em nenhum momento posso discordar de suas palavras. Tradução mútua de pensamentos e sentimentos! Mandou muito Gabi, parabéns! ;)
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